os Produtos Alimentícios no Brasil: Custos, Fast Food e o Futuro do Delivery

Em julho de 2025, uma decisão do governo dos Estados Unidos — sob a nova gestão de Donald Trump — abalou diretamente o comércio exterior brasileiro. Uma elevação tarifária de 50% sobre produtos brasileiros importados pelos EUA foi anunciada e, segundo o próprio presidente americano, a medida é uma retaliação à forma como o Brasil tem conduzido processos judiciais contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Mas o que parece ser uma manobra de natureza política pode afetar — e muito — o dia a dia do brasileiro, principalmente quando o assunto é alimentação, fast food, delivery e consumo. Este artigo tem como objetivo esmiuçar tecnicamente e estrategicamente os impactos dessa tarifação, com foco nos seguintes pontos:
- Quais produtos brasileiros são afetados?
- Como isso interfere no custo dos alimentos e insumos no Brasil?
- Qual o impacto direto sobre hamburguerias, dark kitchens e operações de delivery?
- O que o cliente final vai sentir no bolso?
- Quais são os riscos e estratégias para os negócios de alimentação?
Vamos mergulhar nesse tema e entender o que muda na mesa e no caixa dos brasileiros a partir de agora.
1. O que é a nova tarifação de 50% dos EUA?

Natureza da medida
A tarifa anunciada pelo presidente Donald Trump impõe 50% de imposto sobre diversos produtos brasileiros, substituindo os antigos acordos bilaterais que mantinham a tarifa em torno de 10% em muitas categorias.
Essa ação é uma decisão unilateral, feita sob a justificativa de “proteger a economia americana de práticas injustas”. No entanto, analistas apontam fortemente o caráter político da decisão, já que ela surge poucos dias após Lula confirmar que Bolsonaro será julgado no Supremo Tribunal Federal.
Produtos afetados
Entre os principais produtos brasileiros afetados, estão:
- Café em grão e solúvel
- Suco de laranja e polpa concentrada
- Carnes (bovina, de frango e suína)
- Celulose e papel
- Equipamentos industriais e aeronaves (como da Embraer)
2. Reação do Brasil e o risco de retaliação em cadeia
O governo brasileiro já anunciou que estuda retaliações proporcionais com base em acordos internacionais e ativou o Itamaraty para iniciar tentativas de negociação. A medida, porém, gerou instabilidade nos mercados, aumentou o custo do dólar comercial e acendeu o alerta em diversos setores — especialmente no agronegócio e na indústria alimentícia.
3. Aumento de custos indiretos no Brasil
Efeito cambial e inflação
A primeira consequência da nova tarifação é a desvalorização do real frente ao dólar, o que impacta diretamente o custo de importação de:
- Trigo (base para pães, massas, farinha, empanados)
- Óleos e gorduras vegetais
- Queijos importados
- Equipamentos de cozinha e insumos industriais
- Tecnologia e softwares de gestão (como tablets, celulares, impressoras de pedidos, PDVs)
Mesmo que a tarifa seja uma resposta a produtos brasileiros exportados, o mercado reage com medo, elevando a cotação do dólar. Isso encarece automaticamente os insumos que os empreendedores de alimentação compram — mesmo que não estejam diretamente relacionados aos EUA.
4. Impacto nas hamburguerias e no delivery

Vamos agora aos desdobramentos práticos no mundo das hamburguerias, dark kitchens e delivery. O efeito é em cadeia:
A. Ingredientes importados
Produtos como queijos especiais (cheddar, gorgonzola, gouda) e condimentos americanos (barbecue, mostardas, molhos artesanais) sofrem aumento direto.
Mesmo os que são produzidos nacionalmente com insumos importados também sofrem reajuste, como:
- Queijo tipo cheddar nacional (feito com corante importado e base industrial americana)
- Maionese industrial premium
- Ketchup e mostarda com perfil gourmet
Resultado: o CMV (Custo de Mercadoria Vendida) sobe entre 8% e 20% dependendo do cardápio.
B. Embalagens e insumos operacionais
Grande parte das embalagens de delivery (especialmente as mais resistentes e sustentáveis) são feitas com polímeros, plásticos ou papeis importados ou com base em insumos dolarizados. Com o aumento da cotação, o custo operacional também sobe:
- Caixas kraft: aumento de 10% a 15%
- Sacolas laminadas com branding: aumento de 15% a 25%
- Embalagens PET para bebidas, saladas ou sobremesas: aumento de até 20%
C. Equipamentos e manutenção
Chapas, fritadeiras, grills elétricos, fornos combinados e até mesmo freezers utilizados por hamburguerias dependem de peças e tecnologias importadas. Com a valorização do dólar:
- A manutenção preventiva e corretiva sobe.
- O custo de reposição de equipamentos ou expansão de cozinha aumenta.
- Dificulta-se o investimento em tecnologia de automação e produção.
5. Efeito dominó no consumo do cliente final

Aumento nos preços dos produtos finais
Com o aumento nos custos de insumos, o empreendedor tem duas opções:
- Represar a margem e lucrar menos.
- Repassar o custo e aumentar o preço ao consumidor.
A maior parte das hamburguerias e operações de delivery, especialmente as de pequeno e médio porte, tende a adotar a segunda opção.
Isso significa que o cliente final verá aumento nos preços médios:
- Smash burgers que custavam R$ 22 a R$ 26 podem passar a R$ 28 ou R$ 30.
- Combos com batata e refrigerante saem de R$ 36 para R$ 42 ou mais.
- Produtos premium com molhos especiais ou queijos importados podem ultrapassar a casa dos R$ 50.

Redução no ticket médio e no volume de vendas
O consumidor médio já está fragilizado pelo cenário inflacionário. Ao se deparar com preços mais altos, o comportamento natural é:
- Comprar menos vezes por semana
- Escolher produtos mais baratos
- Abandonar produtos complementares como sobremesas, bebidas e adicionais
Isso diminui o ticket médio e a rotatividade de caixa.
6. O risco para pequenos negócios e dark kitchens

As operações menores, que têm margens mais sensíveis, sofrem mais rapidamente os impactos. São negócios que:
- Dependem de volume para diluir custos
- Têm menor poder de negociação com fornecedores
- Trabalham com pouca margem de erro no CMV
O aumento do custo operacional pode significar:
- Redução da equipe
- Enxugamento do cardápio
- Perda de qualidade nos insumos
- Aumento do tempo de produção (por falta de equipamentos ou adaptação de processos)
7. Tendências e movimentos esperados no mercado
Diante do cenário de aumento de custos, espera-se:
A. Nacionalização de ingredientes
Empreendedores buscarão alternativas nacionais e regionais para substituir insumos importados. Alguns movimentos:
- Queijos brasileiros como coalho, meia cura e minas padrão ganham espaço nos burgers.
- Maioneses artesanais substituem as industriais importadas.
- Pães de fermentação natural produzidos localmente tornam-se tendência.
B. Redução de cardápios e foco em rentabilidade
O conceito de cardápio campeão se intensifica: menos produtos, melhor precificados, mais lucrativos.
- Produtos iscas e produtos âncoras ganham ainda mais protagonismo.
- Redução de insumos de difícil reposição.
- Substituição de ingredientes por equivalentes locais.
C. Foco em identidade e storytelling
Com a necessidade de aumentar o valor percebido, os negócios vão se apoiar em:
- Identidade visual e verbal fortes
- Histórias reais por trás do produto
- Diferenciação pelo conceito, e não só pelo preço
8. Oportunidades para quem se prepara

Apesar das dificuldades, há espaço para crescimento e fortalecimento das operações que se ajustam:
- Quem domina ficha técnica, precificação e estruturação de cardápio tem mais capacidade de manobra.
- Operações que investem em branding e delivery inteligente se diferenciam.
- Quem foca em margem, controle e identidade constrói um negócio mais resistente à instabilidade econômica.
9. Dicas do Chef Aluisio Dias para contornar os impactos
- Revise suas fichas técnicas urgentemente
- Identifique os insumos que tiveram maior variação cambial.
- Ajuste a gramatura e o preço de venda com base na nova realidade.
- Otimize o seu cardápio
- Corte produtos com baixa saída e alto custo.
- Crie um produto isca com apelo popular, e um produto margem altamente lucrativo.
- Faça renegociação com fornecedores
- Busque acordos mais vantajosos com base em volume.
- Aposte em ingredientes locais e em parcerias regionais.
- Invista em comunicação
- Explique a alta de preços com transparência e profissionalismo.
- Valorize os diferenciais do seu produto para justificar o preço.
- Aposte em processos e controle
- Estruture seus processos operacionais com padrão e regularidade.
- Utilize ferramentas de gestão para não perder dinheiro em insumos.
Conclusão
A nova tarifação imposta pelos EUA é mais do que uma disputa diplomática: ela já está mexendo com o prato do brasileiro e com o caixa dos empreendedores do setor alimentício. Delivery, fast food e hamburguerias são diretamente impactados — tanto pelos custos que aumentam quanto pelo comportamento do consumidor que se transforma.
Mas quem conhece o jogo, domina técnica, estrutura, precificação e storytelling, consegue transformar crise em oportunidade.
O momento exige ação estratégica, controle técnico e posicionamento. E para isso, você não está sozinho.
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